Diabetes: sintomas, tipos, diagnóstico e tratamento

A diabetes é uma doença crónica em que o açúcar (glicose) no sangue se mantém acima do normal, porque o pâncreas produz pouca insulina ou porque o organismo não a consegue utilizar bem. Pode instalar-se sem dar sinais durante anos. Ainda assim, é diagnosticada com análises simples e, com acompanhamento regular, pode ser controlada. Neste guia explicamos o que distingue os vários tipos, quais são os sintomas, como se faz o diagnóstico segundo os critérios da Direção-Geral da Saúde (DGS), de que forma a obesidade e o tabagismo aumentam o risco e como se trata a doença ao longo da vida.
O tema diz respeito a muitas famílias portuguesas. Segundo o relatório anual do Observatório Nacional da Diabetes, publicado em 2025, a prevalência da doença em Portugal chegou a 14,2% em 2024, o valor mais alto alguma vez registado, e os Cuidados de Saúde Primários registaram 88 476 novos casos nesse ano. A diabetes faz, por isso, parte do dia a dia de quase todas as consultas de medicina do adulto.
Índice
- O que é a diabetes
- Os principais tipos de diabetes
- Sintomas da diabetes: o que se sente
- Como se faz o diagnóstico
- Fatores de risco: obesidade, tabagismo e outros
- Complicações da diabetes
- Tratamento e acompanhamento
- Como acompanhamos a diabetes no C3
- Perguntas frequentes
O que é a diabetes
A glicose é a principal fonte de energia das células e chega ao sangue através dos alimentos. Para entrar nas células precisa da insulina, uma hormona produzida pelo pâncreas. Quando a insulina falta ou deixa de atuar com eficácia, a glicose acumula-se no sangue e surge a hiperglicemia.
A Direção-Geral da Saúde, no âmbito do Programa Nacional para a Diabetes, define a diabetes como uma doença crónica caracterizada por níveis elevados de glicose no sangue. As causas são a produção insuficiente de insulina, a sua utilização ineficaz pelo organismo ou as duas ao mesmo tempo. Com os anos, o excesso de glicose vai lesando vasos sanguíneos e nervos. É por isso que o controlo da doença não se resume a um número na análise: o objetivo é proteger o coração, os rins, os olhos e os pés.
Os principais tipos de diabetes
A DGS distingue três formas principais: a diabetes tipo 1, a diabetes tipo 2 e a diabetes gestacional. Existem outras formas menos frequentes, associadas a doenças do pâncreas, a alterações genéticas ou a certos medicamentos, como os corticosteroides em uso prolongado.
| Tipo | O que acontece | Quem afeta com mais frequência | Tratamento base |
|---|---|---|---|
| Diabetes tipo 1 | O sistema imunitário destrói as células do pâncreas que produzem insulina | Crianças, adolescentes e adultos jovens, embora possa surgir em qualquer idade | Insulina diária, desde o diagnóstico |
| Diabetes tipo 2 | O organismo utiliza mal a insulina (insulinorresistência) e, com o tempo, o pâncreas pode deixar de produzir o suficiente | Adultos, sobretudo com excesso de peso, vida sedentária ou familiares com diabetes | Mudanças no estilo de vida, medicamentos orais ou injetáveis e, em alguns casos, insulina |
| Diabetes gestacional | Hiperglicemia que surge pela primeira vez durante a gravidez | Grávidas, sobretudo com fatores de risco | Alimentação orientada, vigilância da glicemia e, se necessário, insulina |
Diferença entre diabetes tipo 1 e tipo 2
A diferença essencial está na causa. Na diabetes tipo 1, uma reação autoimune destrói as células produtoras de insulina e o organismo deixa de a fabricar. Os sintomas costumam surgir em poucas semanas e a insulina é indispensável desde o início.
Na diabetes tipo 2, a forma mais comum, a insulina continua a ser produzida mas atua mal, sobretudo quando há excesso de gordura abdominal. O pâncreas compensa durante anos até esgotar parte da sua capacidade. A evolução é lenta e muitas vezes silenciosa, de modo que não é raro o diagnóstico surgir numa análise de rotina ou depois de uma complicação.

Pré-diabetes: o aviso que ainda pode ser revertido
Antes da diabetes tipo 2 há quase sempre uma fase intermédia, a pré-diabetes. A glicemia já está acima do normal, mas ainda não atinge os valores de diagnóstico. É a altura certa para agir: perder algum peso, mexer-se mais e rever a alimentação pode atrasar ou evitar a progressão para diabetes. Em Portugal, o estudo PREVADIAB estimou em 2008 que 23,2% da população entre os 20 e os 79 anos tinha pré-diabetes, uma proporção que mostra a importância do rastreio.
Sintomas da diabetes: o que se sente
Muitas pessoas com diabetes tipo 2 não sentem nada durante anos. Quando os sintomas aparecem, os mais frequentes são:
- sede intensa e boca seca;
- necessidade de urinar muitas vezes e em grande quantidade, também durante a noite;
- fome aumentada;
- cansaço fora do habitual;
- visão turva;
- perda de peso sem explicação, mais típica da diabetes tipo 1;
- feridas que demoram a cicatrizar;
- infeções repetidas, como infeções urinárias, genitais ou da pele;
- formigueiro ou dormência nos pés e nas mãos.
Nenhum destes sinais, sozinho, confirma a doença. Mas a combinação de sede, urinar muito e cansaço justifica pedir uma análise de glicemia ao seu médico de família ou de medicina interna.
Quando os sintomas exigem atendimento urgente
Há situações em que não se deve esperar por uma consulta:
- Cetoacidose diabética, mais frequente na diabetes tipo 1: respiração rápida ou difícil, hálito com cheiro a fruta, náuseas e vómitos, dor abdominal, desidratação, sonolência ou desmaio. É uma emergência médica: ligue 112 ou dirija-se a um serviço de urgência.
- Hiperglicemia muito elevada, sobretudo em pessoas idosas com diabetes tipo 2: sede extrema, urina abundante, confusão e prostração ao longo de vários dias. Também exige avaliação urgente.
- Hipoglicemia, ou seja, açúcar demasiado baixo, em quem faz insulina ou certos comprimidos: tremores, suores frios, palpitações, fome súbita, confusão ou comportamento estranho. Se a pessoa estiver consciente, deve tomar de imediato açúcar de absorção rápida, de acordo com o plano combinado com o médico. Se não conseguir engolir ou perder a consciência, ligue 112.
Em caso de dúvida sobre sintomas ou sobre o que fazer, a linha SNS 24 (808 24 24 24) dá orientação a qualquer hora.
Como se faz o diagnóstico
O diagnóstico é feito com análises ao sangue. A DGS considera que existe diabetes quando se verifica um dos seguintes critérios:
| Análise | Valor que confirma diabetes |
|---|---|
| Glicemia em jejum (pelo menos 8 horas sem comer) | ≥ 126 mg/dL |
| Glicemia às 2 horas na prova de tolerância oral à glicose (75 g) | ≥ 200 mg/dL |
| Hemoglobina glicada (HbA1c) | ≥ 6,5% |
| Glicemia ocasional, em qualquer momento do dia, com sintomas típicos | ≥ 200 mg/dL |
Sem sintomas, um valor alterado deve ser confirmado numa segunda análise. A HbA1c reflete a média da glicemia dos últimos dois a três meses e é também a análise mais usada para avaliar se o tratamento está a resultar.
Na pré-diabetes, a norma portuguesa considera a anomalia da glicemia em jejum (entre 110 e 125 mg/dL) e a tolerância diminuída à glicose (entre 140 e 199 mg/dL às 2 horas da prova). Se recebeu análises recentes e quer perceber os valores, explicamos como fazê-lo no nosso guia para interpretar análises clínicas.
Fatores de risco: obesidade, tabagismo e outros
A diabetes tipo 2 resulta de uma combinação de predisposição genética e hábitos de vida. A DGS identifica como fatores de risco:
- idade, com o risco a aumentar ao longo da vida adulta;
- familiares diretos com diabetes;
- excesso de peso ou obesidade, sobretudo com gordura abdominal;
- sedentarismo;
- hipertensão arterial;
- tabagismo;
- alimentação pobre em fruta e hortícolas;
- glicemia elevada numa análise anterior ou diabetes gestacional numa gravidez.
Alguns destes fatores não se alteram, como a idade ou a história familiar. Outros dependem de nós, e é aí que a prevenção tem resultados.
Obesidade e diabetes
O excesso de peso é o fator de risco modificável com maior peso na diabetes tipo 2. A DGS estima que o risco seja cerca de sete vezes superior na pré-obesidade e entre 20 e 40 vezes superior na obesidade. A gordura acumulada no abdómen e no fígado torna as células menos sensíveis à insulina e obriga o pâncreas a trabalhar em excesso.
A boa notícia é que não é preciso atingir o peso ideal para notar benefícios: uma perda moderada e mantida já melhora a glicemia, a tensão arterial e o colesterol. Quando a diabetes surge associada a hipertensão, colesterol elevado e perímetro abdominal aumentado, falamos de síndrome metabólica. Explicamos a abordagem alimentar neste quadro no artigo sobre a dieta na síndrome metabólica.
Tabagismo e diabetes
Fumar aumenta o risco de desenvolver diabetes tipo 2 e agrava muito as suas consequências. A nicotina e as outras substâncias do tabaco lesam a parede das artérias, a mesma estrutura que a hiperglicemia já fragiliza. O resultado é um risco muito maior de enfarte, AVC, doença das artérias das pernas e amputação.
Por isso, as recomendações europeias de cardiologia para a pessoa com diabetes, divulgadas em Portugal pela Sociedade Portuguesa de Cardiologia, aconselham deixar de fumar, haja ou não doença cardiovascular. Para aumentar a probabilidade de sucesso, podem ser ponderados substitutos de nicotina, medicamentos como a vareniclina ou a bupropiona e aconselhamento individual. Deixar de fumar raramente se consegue só com força de vontade: o apoio médico e psicológico faz diferença, sobretudo quando o tabaco está ligado à ansiedade ou ao stress.
Complicações da diabetes
A hiperglicemia mantida durante anos lesa os vasos sanguíneos pequenos e grandes e os nervos. As principais complicações são:
- Cardiovasculares: enfarte, AVC, doença arterial periférica e insuficiência cardíaca. A diabetes raramente vem sozinha: a hipertensão resistente e o colesterol elevado são companheiros frequentes e somam risco.
- Renais (nefropatia): perda progressiva da função dos rins, detetada precocemente pela pesquisa de albumina na urina e pela avaliação da função renal.
- Oculares (retinopatia): lesões da retina que podem comprometer a visão e que, numa fase inicial, não dão sintomas. Por isso o rastreio regular com observação da retina é indispensável.
- Neurológicas (neuropatia): formigueiro, dor em queimadura ou perda de sensibilidade nos pés, que facilita feridas despercebidas.
- Pé diabético: a combinação de má circulação e perda de sensibilidade pode transformar uma pequena ferida numa úlcera grave.
Vale a pena conhecer também os primeiros sinais de insuficiência cardíaca, como falta de ar aos esforços ou pernas inchadas, porque a pessoa com diabetes tem um risco aumentado.
Tratamento e acompanhamento
A diabetes tipo 2 não tem cura no sentido clássico, mas pode ser controlada de forma eficaz e, em algumas pessoas que perdem peso de forma significativa no início da doença, entrar em remissão. O tratamento assenta em quatro pilares.
Alimentação
Não existe uma dieta única para a diabetes. A DGS recomenda uma alimentação saudável, equilibrada e variada, que ajuda a controlar a glicemia e melhora a sensibilidade à insulina. Na prática, isto significa:
- dar prioridade a hortícolas, leguminosas, cereais integrais, fruta inteira, peixe e azeite, a base do padrão alimentar mediterrânico;
- evitar refrigerantes, sumos, bolos, doces e pão branco em excesso, que fazem subir a glicemia rapidamente;
- controlar as porções de arroz, massa e batata, sem as eliminar;
- distribuir as refeições ao longo do dia e não saltar o pequeno-almoço;
- moderar o álcool e o sal.
O plano alimentar deve ser ajustado à medicação, ao peso, à idade e às outras doenças. Desenvolvemos estas escolhas no nosso plano alimentar para a diabetes tipo 2, com estratégias para reduzir os picos de glicemia depois das refeições.
Atividade física
O músculo em atividade consome glicose e torna-se mais sensível à insulina. A DGS recomenda que os adultos façam 150 a 300 minutos por semana de atividade aeróbia moderada, como caminhar a passo rápido, ou 75 a 150 minutos de atividade vigorosa, e que fortaleçam os principais grupos musculares pelo menos dois dias por semana. Para quem parte do sedentarismo, uma caminhada de 10 minutos depois de cada refeição é um bom começo.

Em pessoas mais velhas, com dores articulares, neuropatia ou doença cardíaca, o exercício deve ser prescrito e acompanhado, para ser seguro e eficaz.
Medicação
Quando as mudanças no estilo de vida não chegam, o médico pode acrescentar medicamentos orais ou injetáveis. Alguns também protegem o coração e os rins. Na diabetes tipo 1, e em algumas pessoas com tipo 2, é necessária insulina. Nunca interrompa nem altere a dose de um medicamento para a diabetes por iniciativa própria: fale primeiro com o médico que o acompanha, sobretudo se tiver hipoglicemias ou efeitos adversos.
Vigilância regular
O acompanhamento da pessoa com diabetes inclui, com a periodicidade definida pelo médico:
- HbA1c, habitualmente a cada três a seis meses;
- tensão arterial e perfil lipídico, com atenção especial ao colesterol alto;
- função renal e pesquisa de albumina na urina;
- observação da retina;
- observação dos pés e da sensibilidade;
- revisão da medicação e do peso.
Saúde emocional
Viver com uma doença crónica exige decisões diárias sobre comida, medicação e análises. O cansaço emocional, a ansiedade e a depressão são mais frequentes nas pessoas com diabetes e, quando presentes, tornam o controlo da glicemia mais difícil. Pedir apoio psicológico faz parte do tratamento e não é sinal de fraqueza.
Como acompanhamos a diabetes no C3
No C3 – Centro Clínico de Coimbra, a diabetes é acompanhada de forma integrada, porque raramente se resume a um único problema. A consulta de Medicina Geral e Familiar (50 € por consulta) é o ponto de partida para o rastreio, o diagnóstico e a vigilância. A Medicina Interna (primeira consulta 80 €, consultas seguintes 70 €) acompanha a pessoa com várias doenças crónicas em simultâneo, como diabetes, hipertensão e colesterol elevado.
Conforme as necessidades de cada pessoa, articulamos com outras especialidades do centro:
- Nutrição (60 € por consulta), para um plano alimentar personalizado e para a perda de peso;
- Cardiologia (primeira consulta 80 €), para avaliar e reduzir o risco cardiovascular;
- Nefrologia, quando há sinais de atingimento renal;
- Neurologia (90 € por consulta), na avaliação da neuropatia;
- Psicologia Clínica (primeira consulta 70-80 €), no apoio emocional, na adesão ao tratamento e na cessação tabágica;
- Medicina Física e de Reabilitação (sessão 40 € ou pack de 10 sessões por 360 €), para programas de exercício seguros em pessoas com limitações físicas.
As consultas realizam-se presencialmente em Coimbra e, em várias especialidades, também online. Pode consultar todos os valores e acordos na página de preços e acordos do C3.
Perguntas frequentes
A diabetes tem cura?
A diabetes tipo 1 não tem cura e exige insulina para toda a vida. Na diabetes tipo 2, algumas pessoas que perdem peso de forma significativa, sobretudo nos primeiros anos da doença, conseguem manter a glicemia normal sem medicação, o que se designa por remissão. Mesmo nesses casos, a vigilância regular continua a ser necessária.
O que não se deve comer quando se tem diabetes?
Convém evitar bebidas açucaradas, sumos de fruta, doces, bolos, bolachas e produtos muito refinados, que provocam subidas rápidas da glicemia. O álcool deve ser moderado, porque pode causar hipoglicemia em quem faz insulina ou certos comprimidos. Não é preciso eliminar os hidratos de carbono: importa escolher os integrais e ajustar as porções com o médico ou o nutricionista.
A pessoa com diabetes pode comer fruta?
Pode e deve, de preferência inteira e não em sumo, porque a fibra atrasa a absorção do açúcar. A quantidade é o que importa: duas a três porções por dia, distribuídas pelas refeições, encaixam na maioria dos planos alimentares. Frutas muito maduras ou em calda devem ser limitadas.
Com que frequência devo fazer análises à glicemia?
Quem tem fatores de risco, como excesso de peso, hipertensão ou familiares com diabetes, deve fazer análises de rastreio regularmente, com o intervalo definido pelo médico de família. Quem já tem diabetes faz habitualmente a HbA1c a cada três a seis meses, conforme o controlo da doença. A autovigilância em casa, com glucómetro, depende do tipo de tratamento e deve ser combinada com o médico.
Deixar de fumar melhora a diabetes?
Deixar de fumar reduz de forma clara o risco de enfarte, AVC e amputação, que é a principal ameaça para a pessoa com diabetes. Nas primeiras semanas pode haver algum aumento de peso e de apetite, que se previne com orientação alimentar. O apoio médico, eventualmente com medicação, e o acompanhamento psicológico aumentam muito as probabilidades de sucesso.