Perturbações da memória: causas, sinais de alerta e tratamento

Falamos de perturbação da memória quando as falhas de memória deixam de ser ocasionais e começam a interferir com a vida diária: perder-se num caminho conhecido, repetir a mesma pergunta várias vezes na mesma conversa, deixar de conseguir gerir as contas ou a medicação. Nem toda a perda de memória é demência. A depressão, a ansiedade, a privação de sono, alguns medicamentos, a falta de vitamina B12 ou alterações da tiroide também podem estar na origem, e muitas destas causas têm tratamento. Por isso, o passo decisivo é uma avaliação clínica bem feita, que identifique a causa e oriente o tratamento. Neste artigo explicamos como distinguir o esquecimento normal de um sinal de alerta, que doenças podem afetar a memória, como decorre a avaliação em neurologia e neuropsicologia e o que a reabilitação neuropsicológica pode, e não pode, fazer.
Índice
- O que são perturbações da memória
- Causas: nem toda a perda de memória é demência
- Primeiros sinais da doença de Alzheimer e de outras demências
- Quando procurar avaliação médica
- Como é feita a avaliação
- Tratamento e acompanhamento consoante a causa
- A Unidade de Memória e Demência do C3, em Coimbra
- Perguntas frequentes
O que são perturbações da memória
A memória não é uma função única. Inclui a capacidade de reter informação nova (memória recente), de a guardar ao longo do tempo e de a recuperar quando é necessária, e trabalha em estreita ligação com a atenção, a linguagem, a orientação e as chamadas funções executivas, que nos permitem planear e organizar tarefas. Uma perturbação da memória é um compromisso de uma ou mais destas capacidades que vai além do que é esperado para a idade e para o nível de escolaridade da pessoa.
Com o envelhecimento, é normal que a aprendizagem de informação nova se torne mais lenta e que um nome demore a surgir. Contudo, no envelhecimento normal, a pessoa continua a realizar de forma autónoma as suas atividades do dia a dia. A demência, pelo contrário, define-se precisamente pela perda de capacidades cognitivas que interfere com a vida quotidiana. Entre estes dois extremos existe o défice cognitivo ligeiro (DCL): há um declínio mensurável, por vezes notado pela própria pessoa ou pela família, mas a autonomia está globalmente preservada. O DCL merece acompanhamento, porque nalgumas pessoas evolui para demência e noutras mantém-se estável ou até reverte quando a causa é corrigida.

Esquecimento normal ou sinal de alerta?
A Associação Alzheimer Portugal descreve dez sinais de alerta e, para cada um, o que pode ser considerado normal. O quadro seguinte resume essa lógica com exemplos do quotidiano.
| Situação | Habitualmente normal | Pode justificar avaliação |
|---|---|---|
| Memória recente | Esquecer um nome e lembrar-se mais tarde | Esquecer conversas ou acontecimentos recentes e repetir a mesma pergunta |
| Planeamento | Um erro ocasional a fazer contas | Deixar de conseguir seguir uma receita habitual ou gerir as contas do mês |
| Tarefas familiares | Precisar de ajuda para programar um aparelho novo | Dificuldade em conduzir até um local conhecido ou em preparar uma refeição |
| Orientação | Confundir o dia da semana e corrigir depois | Perder a noção da data, da estação do ano ou de onde está |
| Linguagem | Uma palavra que fica “debaixo da língua” | Parar a meio das frases, trocar palavras com frequência |
| Objetos | Perder as chaves de vez em quando | Guardar objetos em sítios estranhos e não conseguir refazer o percurso |
| Humor e comportamento | Irritar-se quando a rotina é alterada | Alterações marcadas de personalidade, desconfiança, apatia ou isolamento |
O que mais pesa na avaliação não é um episódio isolado, mas o padrão: falhas que se repetem, que se agravam ao longo de meses e que são notadas por quem convive com a pessoa.
Causas: nem toda a perda de memória é demência
Uma parte importante da avaliação consiste em procurar causas tratáveis. O Manual de Boas Práticas em Demência da União das Misericórdias Portuguesas sublinha que, perante sinais de alarme, a pessoa deve procurar o seu médico assistente para excluir demências secundárias, ou seja, quadros provocados por outras doenças que podem ser corrigidas.
Causas potencialmente reversíveis
- Depressão e ansiedade: a depressão pode provocar falhas de memória e de concentração tão marcadas que simulam uma demência, um quadro conhecido como pseudodemência. A ansiedade persistente reduz a atenção, e sem atenção a informação não chega a ser memorizada.
- Privação de sono e apneia do sono: dormir mal de forma continuada afeta a consolidação da memória.
- Défices nutricionais: sobretudo a deficiência de vitamina B12, mais frequente em idosos e em quem toma determinados medicamentos de forma prolongada.
- Alterações da tiroide: o hipotiroidismo pode lentificar o pensamento e a memória.
- Medicamentos: alguns ansiolíticos, indutores do sono, anti-histamínicos e fármacos com efeito anticolinérgico, especialmente quando combinados em pessoas mais velhas.
- Álcool: o consumo excessivo e prolongado lesa diretamente as estruturas cerebrais envolvidas na memória.
- Outras situações médicas: infeções, desidratação, traumatismos cranianos, hidrocefalia de pressão normal ou tumores cerebrais.
Nunca suspenda nem altere medicação por iniciativa própria por suspeitar que afeta a memória. Leve a lista completa dos medicamentos, incluindo suplementos e produtos de venda livre, à consulta de Medicina Geral e Familiar ou de Medicina Interna, para que o médico reveja interações e doses.
Doenças neurológicas que afetam a memória
Quando as causas reversíveis são excluídas ou não explicam todo o quadro, a neurologia procura identificar uma doença neurodegenerativa ou vascular. As mais frequentes são:
- Doença de Alzheimer: a causa mais comum de demência. Começa geralmente de forma insidiosa, com dificuldade em reter informação recente, e progride ao longo de anos.
- Demência vascular: resulta de lesões provocadas por acidentes vasculares cerebrais ou por doença dos pequenos vasos. Pode evoluir “em degraus” e associa-se a fatores de risco como a hipertensão, a diabetes e o tabagismo.
- Demência com corpos de Lewy: combina flutuações marcadas da atenção, alucinações visuais e sintomas semelhantes aos da doença de Parkinson.
- Demência frontotemporal: surge muitas vezes antes dos 65 anos e tende a manifestar-se primeiro por alterações do comportamento, da personalidade ou da linguagem, mais do que da memória.
- Doença de Parkinson: além dos sintomas motores, pode associar-se, em fases mais avançadas, a lentificação do pensamento e défice cognitivo.
Em Portugal, o primeiro estudo de base populacional sobre o tema, realizado entre 2003 e 2008 e publicado no repositório da Universidade de Coimbra, encontrou uma prevalência de demência de 2,7% na população entre os 55 e os 79 anos. A Associação Alzheimer Portugal, com base em estimativas da Alzheimer Europe, refere mais de 193 500 pessoas com demência no país. Com o envelhecimento da população, estes números tendem a aumentar, o que reforça a importância do diagnóstico precoce.
Primeiros sinais da doença de Alzheimer e de outras demências
Nas fases iniciais, os sintomas da doença de Alzheimer podem ser muito subtis. Segundo a Associação Alzheimer Portugal, começam frequentemente por lapsos de memória e por dificuldade em encontrar as palavras certas para objetos do quotidiano. Na prática, as famílias costumam relatar situações como:
- a pessoa conta a mesma história duas ou três vezes na mesma tarde;
- passa a depender de notas e lembretes para coisas que antes recordava sem esforço;
- esquece compromissos, consultas ou a toma de medicamentos;
- tem dificuldade em acompanhar uma conversa em grupo ou o enredo de um programa de televisão;
- perde o interesse por atividades de que gostava e isola-se;
- desorienta-se num percurso habitual, por exemplo a caminho do supermercado ou da casa de um familiar.
Nas outras demências, os primeiros sinais podem ser diferentes. Na demência frontotemporal, a família nota sobretudo comportamentos desadequados, desinibição ou perda de empatia. Na demência com corpos de Lewy, os dias alternam entre períodos de clareza e de grande confusão. Na demência vascular, a lentificação e a dificuldade de organização podem preceder as falhas de memória. Estas diferenças explicam porque o diagnóstico deve ser feito por um médico com experiência nesta área, apoiado por uma avaliação neuropsicológica.
Quando procurar avaliação médica
Marque uma consulta quando as falhas de memória se repetem durante semanas ou meses, se agravam, ou são notadas por familiares, colegas ou amigos. Justificam também avaliação a dificuldade nova em gerir dinheiro ou medicação, as alterações de humor ou de personalidade sem explicação aparente e a desorientação em locais conhecidos.
Há situações que não devem esperar por uma consulta programada. Uma confusão que se instala em horas ou poucos dias, sobretudo com febre, sonolência ou agitação, pode corresponder a um estado confusional agudo e exige observação médica no próprio dia. Se a perda de memória ou a confusão surgir de forma súbita, acompanhada de boca ao lado, falta de força num braço ou dificuldade em falar, ligue de imediato 112: são sinais de possível acidente vascular cerebral. O mesmo se aplica após uma queda com traumatismo da cabeça, em especial em quem toma anticoagulantes.

Se for familiar ou cuidador, ajuda muito registar, durante duas ou três semanas, exemplos concretos do que observa: o que aconteceu, quando, e como a pessoa reagiu. Este registo é precioso na consulta.
Como é feita a avaliação
A Norma 053/2011 da Direção-Geral da Saúde, sobre a abordagem diagnóstica e terapêutica do doente com défice cognitivo e demência, atualizada em abril de 2023, define os passos essenciais. De forma simplificada:
- História clínica detalhada: quando começaram os sintomas, como evoluíram, que atividades estão afetadas, antecedentes pessoais e familiares e medicação habitual. A presença de um familiar próximo é muito útil.
- Exame físico e neurológico: procura sinais de doença vascular, de parkinsonismo, de alterações da marcha ou de outras doenças que expliquem o quadro.
- Avaliação cognitiva e funcional: testes de rastreio aplicados na consulta e avaliação do impacto nas atividades da vida diária.
- Análises clínicas: incluem habitualmente hemograma, função da tiroide, vitamina B12, ácido fólico, função renal e hepática e glicemia, entre outras, para excluir causas tratáveis.
- Neuroimagem: tomografia computorizada ou ressonância magnética cerebral, para identificar lesões vasculares, atrofia, tumores ou hidrocefalia.
- Avaliação neuropsicológica formal: segundo a norma da DGS, é indicada para caracterizar o défice cognitivo ligeiro, nas fases iniciais ou quando o diagnóstico não é claro, e é fundamental para identificar os domínios cognitivos afetados e apoiar o diagnóstico diferencial entre as várias formas de demência.
O papel da neurologia e da neuropsicologia
O neurologista integra toda esta informação, estabelece o diagnóstico mais provável, pede exames complementares quando necessário e define o tratamento. O neuropsicólogo, por seu lado, aplica um conjunto alargado de testes padronizados que avaliam memória, atenção, linguagem, funções executivas e capacidades visuoespaciais, e compara os resultados com os esperados para a idade e escolaridade da pessoa. Esta avaliação demora habitualmente várias horas, por vezes repartidas em mais de uma sessão, e o relatório serve de base para o plano de reabilitação. Explicamos todo o processo no nosso artigo sobre avaliação neuropsicológica e quando fazer.
Quando há suspeita de que a depressão ou a ansiedade estão na origem das queixas, a consulta de Psiquiatria e a avaliação psicológica clínica ajudam a esclarecer o quadro, porque tratar a perturbação emocional pode melhorar a memória de forma significativa.
Tratamento e acompanhamento consoante a causa
O tratamento depende sempre do diagnóstico. Quando a causa é reversível, corrigi-la é o tratamento: repor a vitamina B12, compensar a tiroide, ajustar a medicação, tratar a depressão ou a apneia do sono. Nas demências, a norma da DGS prevê tratamento farmacológico específico para algumas formas, medidas preventivas, seguimento clínico regular e informação e apoio ao doente e aos cuidadores. Os medicamentos disponíveis não curam a doença de Alzheimer, mas podem ajudar a estabilizar sintomas durante algum tempo nalgumas pessoas, e a decisão de os usar é sempre médica.
O controlo dos fatores de risco vascular, como a tensão arterial, a diabetes e o colesterol, é uma parte central do acompanhamento, sobretudo quando há componente vascular. Aqui, a articulação com a Medicina Interna e a Cardiologia faz diferença.
Reabilitação neuropsicológica
A reabilitação cognitiva, incluindo o treino cognitivo e a terapia ocupacional, é reconhecida pela norma da DGS como componente da abordagem terapêutica do doente com défice cognitivo ou demência. Na prática, consiste em sessões estruturadas, frequentemente duas a três vezes por semana, em que se treinam funções como a memória, a atenção e a linguagem e se ensinam estratégias compensatórias: uso de agendas, rotinas fixas, organização do espaço da casa, lembretes para a medicação.
Os benefícios esperados são a manutenção da autonomia durante mais tempo, maior confiança nas tarefas do dia a dia e melhor qualidade de vida, para a pessoa e para a família. A Associação Alzheimer Portugal sublinha que a colaboração entre médicos e neuropsicólogos é essencial para definir programas de estimulação cognitiva que procurem tornar mais lenta a evolução das demências. Convém, ainda assim, ser realista: nas doenças progressivas, os ganhos tendem a ser temporários e a resposta varia de pessoa para pessoa. O objetivo não é recuperar o que se perdeu, mas preservar ao máximo o que existe e adaptar o ambiente ao que muda.
Pode saber mais sobre o método em reabilitação cognitiva: como funciona e, para atividades a manter em casa, no guia de estimulação cognitiva em idosos.
Outras áreas que contam
- Terapia da fala: quando há dificuldades de linguagem, de compreensão ou de deglutição.
- Nutrição: a perda de apetite e o esquecimento das refeições são frequentes e agravam a fragilidade, como explicamos no guia sobre desnutrição em idosos.
- Psicologia clínica: para a pessoa que lida com o diagnóstico e para os cuidadores, cuja sobrecarga emocional é muitas vezes subestimada.
- Medicina Física e de Reabilitação: para manter a mobilidade e reduzir o risco de quedas.
Para as famílias, reunimos orientações práticas no nosso guia de acompanhamento de Alzheimer para cuidadores.
A Unidade de Memória e Demência do C3, em Coimbra
No C3 – Centro Clínico de Coimbra, a Unidade de Memória e Demência reúne num só local as especialidades de que uma pessoa com queixas de memória pode precisar: Neurologia, Psiquiatria, Medicina Interna, Medicina Geral e Familiar, Psicologia Clínica e Neuropsicologia, Reabilitação, Terapia da Fala e Nutrição. Esta articulação evita percursos fragmentados e permite que diagnóstico, reabilitação e apoio à família sigam o mesmo plano. Disponibilizamos também consultas online e acompanhamento multilingue para expatriados residentes em Portugal.
| Serviço | Preço |
|---|---|
| Neurologia, primeira consulta | 90 € |
| Psiquiatria, primeira consulta | 90 € |
| Avaliação Neuropsicológica | 200 € |
| Avaliação Psicológica | 150 € |
| Medicina Interna, primeira consulta | 80 € |
| Medicina Geral e Familiar, consulta | 50 € |
| Reabilitação, sessão | 40 € |
| Reabilitação, pack de 10 sessões | 360 € |
| Terapia da Fala, sessão | 40 € |
| Nutrição, consulta | 60 € |
Consulte a tabela completa e os acordos com instituições na página de preços e acordos do C3.
Perguntas frequentes
Quais são os primeiros sintomas da demência?
Os mais frequentes são o esquecimento de informação recente, a repetição de perguntas, a dificuldade em planear ou em executar tarefas habituais e a desorientação no tempo ou no espaço. Alterações de humor, apatia ou isolamento também podem surgir cedo. Na demência frontotemporal, as mudanças de comportamento aparecem muitas vezes antes das falhas de memória.
O que posso tomar para melhorar a minha memória?
Não existe um comprimido que melhore a memória de forma geral. Se houver uma deficiência comprovada, como a de vitamina B12, o médico pode prescrever a sua reposição; fora disso, suplementos sem indicação clínica não têm benefício demonstrado e podem interagir com outros medicamentos. Dormir bem, praticar exercício físico, manter contactos sociais e controlar a tensão arterial e a diabetes são as medidas com maior fundamento.
A perda de memória tem sempre a ver com Alzheimer?
Não. A depressão, a ansiedade, o sono insuficiente, alguns medicamentos, a falta de vitamina B12 ou problemas da tiroide são causas frequentes e tratáveis. A avaliação médica serve precisamente para as identificar antes de considerar uma demência.
Que médico devo consultar por falhas de memória?
O ponto de partida pode ser a Medicina Geral e Familiar, que faz a primeira avaliação e pede análises. Perante suspeita de doença neurológica, a consulta de Neurologia, complementada pela avaliação neuropsicológica, é a indicada; se predominarem sintomas de humor ou ansiedade, a Psiquiatria tem um papel central.
A reabilitação neuropsicológica funciona em quem já tem demência?
Pode ajudar a manter a autonomia e a qualidade de vida durante mais tempo, sobretudo nas fases ligeira e moderada. Não interrompe a progressão da doença e os resultados variam de pessoa para pessoa. Funciona melhor quando é regular, adaptada ao perfil da avaliação neuropsicológica e acompanhada pela família.