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Oct 28, 2026

Doenças do movimento: tipos, sintomas e quando consultar

Mulher idosa a tremer ao segurar um copo

As doenças do movimento são doenças neurológicas que alteram a forma como o corpo se move: tornam os gestos mais lentos e pobres, ou fazem surgir movimentos involuntários que a pessoa não consegue controlar. A doença de Parkinson e o tremor essencial são as mais frequentes, mas o grupo inclui também a distonia, a coreia, os tiques, as mioclonias e a síndrome das pernas inquietas. Neste artigo explicamos como se distinguem, que primeiros sinais justificam uma consulta de Neurologia, como se chega ao diagnóstico e porque é que o acompanhamento funciona melhor quando reúne médicos, psicólogos e terapeutas.

Índice

O que são as doenças do movimento

Segundo a Sociedade Portuguesa de Doenças do Movimento (SPDMov), estas doenças caracterizam-se por alterações do movimento corporal que não resultam de falta de força. Esta distinção é importante: uma pessoa com doença de Parkinson pode ter força muscular normal e, ainda assim, demorar muito mais tempo a abotoar uma camisa ou a levantar-se de uma cadeira. O problema está nos circuitos cerebrais que planeiam, iniciam e regulam o movimento, e não nos músculos.

A classificação mais usada divide estas doenças em dois grandes grupos.

Doenças hipocinéticas

Caracterizam-se por lentidão e pobreza de movimento. O exemplo clássico é o parkinsonismo, cujo núcleo é a bradicinésia (lentidão generalizada dos movimentos), frequentemente acompanhada de rigidez muscular. A pessoa movimenta-se menos, com gestos mais pequenos, e sente dificuldade em iniciar ações simples, como começar a andar.

Doenças hipercinéticas

Caracterizam-se por um excesso de movimentos involuntários. Incluem o tremor, a distonia (contrações musculares mantidas que provocam posturas anómalas), a coreia (movimentos rápidos, irregulares e imprevisíveis), os tiques, as mioclonias (abalos musculares bruscos e breves) e a acatísia (incapacidade de permanecer quieto).

A SPDMov sublinha que diferentes manifestações podem coexistir na mesma doença. A doença de Parkinson é o melhor exemplo: é uma doença hipocinética, mas muitas pessoas apresentam tremor, que é um movimento a mais. Por isso, a classificação ajuda a orientar o raciocínio clínico, mas não substitui a avaliação individual.

Tipo de alteração O que a pessoa nota Exemplos
Lentidão e pobreza de movimento Gestos mais lentos e pequenos, rigidez, passos curtos Doença de Parkinson e outros parkinsonismos
Tremor Oscilação rítmica de uma parte do corpo, em repouso ou em ação Tremor essencial, tremor parkinsónico
Distonia Posturas mantidas ou torções involuntárias Torcicolo espasmódico, cãibra do escrivão
Coreia Movimentos rápidos e irregulares que “passam” de uma zona do corpo para outra Doença de Huntington
Tiques Movimentos ou sons repetitivos, parcialmente suprimíveis Síndrome de Tourette
Mioclonias Abalos súbitos e muito breves Várias causas neurológicas e metabólicas
Inquietação das pernas Desconforto e necessidade de mexer as pernas, sobretudo à noite Síndrome das pernas inquietas

As doenças do movimento mais frequentes

De acordo com a SPDMov, a prevalência da maioria das doenças do movimento é inferior a 1% da população geral. Ainda assim, algumas são bastante comuns, sobretudo depois dos 60 anos.

Doença de Parkinson. A SPDMov refere que afeta 1 a 2% das pessoas com mais de 65 anos. Em Portugal, a Sociedade Portuguesa de Neurologia (SPN) estimou em 2020 que a doença atinge entre 18 e 20 mil pessoas. Resulta da perda progressiva de neurónios produtores de dopamina numa região do cérebro chamada substância negra.

Tremor essencial. É uma causa comum de tremor e, a par da doença de Parkinson, uma das doenças do movimento mais frequentes. Atinge sobretudo as mãos e manifesta-se quando a pessoa as usa: ao segurar um copo, ao escrever ou ao levar a colher à boca. Pode também afetar a cabeça e a voz e, com frequência, há outros casos na família.

Mão a tremer ligeiramente ao escrever

Síndrome das pernas inquietas. Provoca uma sensação desagradável nas pernas e uma necessidade irresistível de as mexer, que surge em repouso, agrava ao fim do dia e alivia com o movimento. Interfere muito com o sono e, por isso, com o descanso e o humor durante o dia.

Distinguir o tremor parkinsónico do tremor essencial é uma das dúvidas mais frequentes nas consultas. A tabela resume as diferenças típicas, que o neurologista confirma no exame clínico.

Característica Tremor na doença de Parkinson Tremor essencial
Quando aparece Sobretudo em repouso, com a mão apoiada Sobretudo em ação ou ao manter uma postura
Distribuição inicial Geralmente assimétrico, começa de um lado Geralmente nas duas mãos
Outros sinais Lentidão, rigidez, passos curtos Habitualmente isolado; pode afetar cabeça e voz
História familiar Menos frequente Frequente

Primeiros sintomas da doença de Parkinson

A SPN estima que os primeiros sintomas da doença de Parkinson só se manifestam quando já se perdeu cerca de 60% dos neurónios da substância negra. Isto explica porque é que o início é discreto e porque é que muitos sinais são atribuídos, durante meses, ao cansaço ou à idade.

Os sintomas motores principais, descritos pela SPN, são:

  • Tremor, geralmente de repouso e assimétrico. Cerca de 75% dos doentes apresentam tremor como primeiro sintoma, mas aproximadamente 25% não o manifestam no início. A ausência de tremor não exclui a doença.
  • Bradicinésia, uma lentidão generalizada: a escrita fica mais pequena, os gestos do dia a dia demoram mais, o braço balança menos ao caminhar.
  • Rigidez muscular, que a pessoa pode sentir como dor ou peso num ombro ou num membro.
  • Instabilidade postural, que surge habitualmente mais tarde e aumenta o risco de quedas.

Há sinais que podem anteceder os sintomas motores em vários anos. A SPN destaca a hiposmia (diminuição do olfato) e as perturbações do sono, em particular sonhos agitados em que a pessoa fala, grita ou se debate. Os familiares notam muitas vezes outras alterações: a face menos expressiva, a voz mais baixa e monótona, o pestanejar menos frequente ou a obstipação persistente.

Os sintomas que não se veem

As doenças do movimento não se resumem ao movimento. A SPDMov descreve um conjunto de sintomas não motores com grande impacto na qualidade de vida:

  • alterações do humor, como ansiedade e depressão;
  • alterações cognitivas, como lentidão de raciocínio, dificuldades de atenção ou de memória;
  • psicose, por exemplo alucinações visuais em fases mais avançadas ou como efeito da medicação;
  • disautonomia, que inclui tonturas ao levantar, obstipação e alterações urinárias;
  • perturbações do sono.

Na prática clínica, estes sintomas pesam muitas vezes mais no quotidiano do que o tremor. Uma depressão não tratada reduz a motivação para os exercícios e para a vida social; uma alteração cognitiva dificulta a gestão da medicação. É por isso que o seguimento deve incluir, desde cedo, a avaliação do humor e das funções cognitivas. Uma avaliação neuropsicológica permite medir de forma objetiva a memória, a atenção e as funções executivas e acompanhar a sua evolução ao longo do tempo.

Quando procurar avaliação médica

Nem todo o tremor significa doença, e nem toda a lentidão é envelhecimento normal. Recomendamos uma consulta de Medicina Geral e Familiar ou de Neurologia quando surge algum destes sinais:

  • tremor que persiste, aumenta ou interfere com tarefas como escrever, comer ou beber;
  • tremor em repouso, sobretudo se começa só de um lado;
  • lentidão nova nos gestos, letra cada vez mais pequena ou passos mais curtos e arrastados;
  • quedas sem causa clara ou sensação de que os pés “ficam presos” ao chão;
  • movimentos involuntários, posturas anómalas ou tiques que surgem na idade adulta;
  • desconforto nas pernas à noite que obriga a levantar e prejudica o sono;
  • perda de olfato sem constipação, ou sonhos agitados em que a pessoa se debate;
  • alterações do movimento que começaram depois de iniciar um novo medicamento.

Neste último caso, alguns fármacos podem provocar ou agravar alterações do movimento. Não suspenda nenhum medicamento por iniciativa própria: leve a lista completa à consulta e deixe que o médico avalie a relação e decida a alteração adequada.

Há situações que não devem esperar por uma consulta. Uma perda súbita de força ou de sensibilidade num lado do corpo, a boca ao lado, dificuldade súbita em falar ou movimentos anómalos que aparecem de forma brusca podem indicar um acidente vascular cerebral. Nesses casos, ligue de imediato para o 112.

Como se faz o diagnóstico

O diagnóstico das doenças do movimento é essencialmente clínico. Isto significa que assenta na história contada pelo doente e pela família e num exame neurológico cuidadoso, em que o neurologista observa o tremor, testa a rapidez de movimentos repetidos, avalia a rigidez, a marcha e o equilíbrio.

No caso da doença de Parkinson, o neurologista procura critérios de parkinsonismo: bradicinésia associada a rigidez, tremor de repouso ou instabilidade postural. Os exames complementares não fazem o diagnóstico por si só, mas ajudam a confirmá-lo e a excluir outras causas. Consoante o caso, podem ser pedidos:

  1. Análises clínicas, para excluir alterações da tiroide, défices vitamínicos ou outras causas metabólicas de tremor.
  2. TAC ou ressonância magnética cerebral, para afastar lesões estruturais, como enfartes ou tumores.
  3. Exames de imagem funcional, como a cintigrafia, que avaliam o sistema dopaminérgico ou a inervação cardíaca e ajudam a distinguir a doença de Parkinson de outros parkinsonismos ou do tremor essencial.
  4. Estudos genéticos, reservados para situações específicas, como início em idade jovem ou vários casos na família.

O diagnóstico é, por vezes, um processo e não um momento. Algumas doenças só revelam o seu padrão com o tempo, e a resposta à medicação é também informação útil. Por isso, o seguimento regular com o mesmo neurologista tem valor clínico próprio.

Tratamento e acompanhamento multidisciplinar

Segundo a SPN, não existe atualmente cura nem medicação que impeça a progressão da doença de Parkinson. O tratamento farmacológico centra-se no controlo dos sintomas, sobretudo através da reposição ou da imitação do efeito da dopamina. Bem ajustado, permite a muitas pessoas manter durante anos a sua atividade e autonomia. Noutras doenças do movimento, o tratamento depende da causa: o tremor essencial, a distonia ou a síndrome das pernas inquietas têm abordagens próprias, definidas pelo neurologista.

Os medicamentos são apenas uma parte da resposta. O acompanhamento é mais completo quando uma equipa segue a pessoa em várias frentes, ao longo de todas as fases da doença.

Neurologia

O neurologista estabelece o diagnóstico, define e ajusta a medicação, monitoriza a evolução e coordena a intervenção das restantes áreas. Com a progressão, os ajustes tornam-se mais finos e as consultas regulares ganham importância.

Reabilitação física

O exercício orientado melhora a mobilidade, o equilíbrio e a confiança na marcha, e ajuda a prevenir quedas. A Medicina Física e de Reabilitação define um plano adaptado à fase da doença, que pode incluir treino de marcha com pistas visuais ou sonoras, exercícios de amplitude e de equilíbrio. Para continuar em casa entre sessões, reunimos exercícios de reabilitação motora que devem ser escolhidos com o terapeuta.

Terapia da fala

A voz baixa e monótona, a dificuldade em articular as palavras e, em fases mais avançadas, a dificuldade em engolir são frequentes na doença de Parkinson. A terapia da fala trabalha a intensidade da voz, a articulação e a segurança da deglutição, reduzindo o risco de engasgamento.

Psicologia e psiquiatria

A ansiedade e a depressão fazem parte da doença e não são apenas uma reação a ela. O acompanhamento em Psicologia ajuda o doente e a família a lidar com o diagnóstico e com as mudanças no dia a dia. Quando há depressão marcada, alterações do sono ou sintomas psicóticos, a Psiquiatria articula o tratamento com a Neurologia.

Nutrição

A medicação pode interagir com a alimentação, a obstipação é muito comum e a perda de peso é frequente nas fases avançadas. Uma consulta de Nutrição ajusta o plano alimentar às necessidades de cada pessoa, incluindo a distribuição das refeições em relação aos horários da medicação.

O papel da família

O cuidador é parte da equipa. É muitas vezes quem nota a primeira alteração, quem acompanha às consultas e quem observa as flutuações ao longo do dia. Envolver a família nas decisões e cuidar também de quem cuida faz parte de um bom plano. Algumas das estratégias que descrevemos no nosso guia para cuidadores de Alzheimer aplicam-se igualmente a quem acompanha uma pessoa com doença de Parkinson e alterações cognitivas.

Como preparar a primeira consulta

Antes de ir, recomendamos que:

  1. Anote quando começaram os sintomas e como evoluíram, mesmo que pareçam pequenos.
  2. Grave um vídeo curto do tremor ou do movimento anómalo, sobretudo se varia ao longo do dia e pode não aparecer durante a consulta.
  3. Leve a lista completa de medicamentos, incluindo suplementos e as doses.
  4. Registe os sintomas não motores: sono, olfato, humor, memória, obstipação, tonturas.
  5. Indique a história familiar de tremor, Parkinson ou outras doenças neurológicas.
  6. Traga exames anteriores, como análises e relatórios de imagem.
  7. Venha acompanhado, se possível: o familiar acrescenta observações que o próprio doente nem sempre nota.

A Unidade de Parkinson e Doenças do Movimento do C3

No C3 – Centro Clínico de Coimbra, a Unidade da Doença de Parkinson e Movimento reúne num só local as especialidades de que estas doenças precisam: Neurologia, Psiquiatria, Psicologia Clínica, avaliação neuropsicológica, reabilitação física e cognitiva, terapia da fala e nutrição. A articulação entre as várias áreas permite acompanhar não só o movimento, mas também o humor, a cognição e a autonomia, com especial atenção às pessoas mais velhas e às doenças crónicas.

A primeira consulta de Neurologia custa 90 €, a avaliação neuropsicológica 200 € e cada sessão de reabilitação ou de terapia da fala 40 €; existe ainda um pack de 10 sessões de reabilitação por 360 €. Disponibilizamos consultas presenciais e online e acompanhamento multilingue para expatriados. Consulte todos os valores e acordos em vigor na página de preços e acordos do C3.

Perguntas frequentes

Tremer das mãos é sempre sinal de Parkinson?

Não. Há tremor fisiológico, que se acentua com o cansaço, a ansiedade ou o café, e o tremor essencial, que é mais frequente do que o tremor parkinsónico e aparece sobretudo ao usar as mãos. O tremor de repouso, que começa de um lado, é mais sugestivo de doença de Parkinson. Só a avaliação neurológica permite distinguir com segurança.

A doença de Parkinson pode começar sem tremor?

Sim. Segundo a SPN, cerca de 25% dos doentes não apresentam tremor no início. Nestes casos, os primeiros sinais são a lentidão, a rigidez, a letra mais pequena ou a redução do balanço de um braço ao caminhar.

Que médico trata as doenças do movimento?

O neurologista é o especialista que faz o diagnóstico e orienta o tratamento. O médico de família tem um papel importante na deteção inicial e no encaminhamento. Ao longo da doença, o acompanhamento beneficia da intervenção de outras áreas, como a reabilitação, a terapia da fala, a psicologia, a psiquiatria e a nutrição.

As doenças do movimento são hereditárias?

Na maioria dos casos de doença de Parkinson, não há uma causa hereditária identificável, embora existam formas genéticas, sobretudo quando a doença começa cedo. Outras doenças, como o tremor essencial, têm frequentemente história familiar, e algumas, como a doença de Huntington, são claramente genéticas. Se há vários casos na família, refira-o na consulta de Neurologia.

Este artigo utiliza ferramentas de IA como assistente de escrita, com revisão e edição humana final.