Doenças do movimento: tipos, sintomas e quando consultar

As doenças do movimento são doenças neurológicas que alteram a forma como o corpo se move: tornam os gestos mais lentos e pobres, ou fazem surgir movimentos involuntários que a pessoa não consegue controlar. A doença de Parkinson e o tremor essencial são as mais frequentes, mas o grupo inclui também a distonia, a coreia, os tiques, as mioclonias e a síndrome das pernas inquietas. Neste artigo explicamos como se distinguem, que primeiros sinais justificam uma consulta de Neurologia, como se chega ao diagnóstico e porque é que o acompanhamento funciona melhor quando reúne médicos, psicólogos e terapeutas.
Índice
- O que são as doenças do movimento
- As doenças do movimento mais frequentes
- Primeiros sintomas da doença de Parkinson
- Os sintomas que não se veem
- Quando procurar avaliação médica
- Como se faz o diagnóstico
- Tratamento e acompanhamento multidisciplinar
- Como preparar a primeira consulta
- A Unidade de Parkinson e Doenças do Movimento do C3
- Perguntas frequentes
O que são as doenças do movimento
Segundo a Sociedade Portuguesa de Doenças do Movimento (SPDMov), estas doenças caracterizam-se por alterações do movimento corporal que não resultam de falta de força. Esta distinção é importante: uma pessoa com doença de Parkinson pode ter força muscular normal e, ainda assim, demorar muito mais tempo a abotoar uma camisa ou a levantar-se de uma cadeira. O problema está nos circuitos cerebrais que planeiam, iniciam e regulam o movimento, e não nos músculos.
A classificação mais usada divide estas doenças em dois grandes grupos.
Doenças hipocinéticas
Caracterizam-se por lentidão e pobreza de movimento. O exemplo clássico é o parkinsonismo, cujo núcleo é a bradicinésia (lentidão generalizada dos movimentos), frequentemente acompanhada de rigidez muscular. A pessoa movimenta-se menos, com gestos mais pequenos, e sente dificuldade em iniciar ações simples, como começar a andar.
Doenças hipercinéticas
Caracterizam-se por um excesso de movimentos involuntários. Incluem o tremor, a distonia (contrações musculares mantidas que provocam posturas anómalas), a coreia (movimentos rápidos, irregulares e imprevisíveis), os tiques, as mioclonias (abalos musculares bruscos e breves) e a acatísia (incapacidade de permanecer quieto).
A SPDMov sublinha que diferentes manifestações podem coexistir na mesma doença. A doença de Parkinson é o melhor exemplo: é uma doença hipocinética, mas muitas pessoas apresentam tremor, que é um movimento a mais. Por isso, a classificação ajuda a orientar o raciocínio clínico, mas não substitui a avaliação individual.
| Tipo de alteração | O que a pessoa nota | Exemplos |
|---|---|---|
| Lentidão e pobreza de movimento | Gestos mais lentos e pequenos, rigidez, passos curtos | Doença de Parkinson e outros parkinsonismos |
| Tremor | Oscilação rítmica de uma parte do corpo, em repouso ou em ação | Tremor essencial, tremor parkinsónico |
| Distonia | Posturas mantidas ou torções involuntárias | Torcicolo espasmódico, cãibra do escrivão |
| Coreia | Movimentos rápidos e irregulares que “passam” de uma zona do corpo para outra | Doença de Huntington |
| Tiques | Movimentos ou sons repetitivos, parcialmente suprimíveis | Síndrome de Tourette |
| Mioclonias | Abalos súbitos e muito breves | Várias causas neurológicas e metabólicas |
| Inquietação das pernas | Desconforto e necessidade de mexer as pernas, sobretudo à noite | Síndrome das pernas inquietas |
As doenças do movimento mais frequentes
De acordo com a SPDMov, a prevalência da maioria das doenças do movimento é inferior a 1% da população geral. Ainda assim, algumas são bastante comuns, sobretudo depois dos 60 anos.
Doença de Parkinson. A SPDMov refere que afeta 1 a 2% das pessoas com mais de 65 anos. Em Portugal, a Sociedade Portuguesa de Neurologia (SPN) estimou em 2020 que a doença atinge entre 18 e 20 mil pessoas. Resulta da perda progressiva de neurónios produtores de dopamina numa região do cérebro chamada substância negra.
Tremor essencial. É uma causa comum de tremor e, a par da doença de Parkinson, uma das doenças do movimento mais frequentes. Atinge sobretudo as mãos e manifesta-se quando a pessoa as usa: ao segurar um copo, ao escrever ou ao levar a colher à boca. Pode também afetar a cabeça e a voz e, com frequência, há outros casos na família.

Síndrome das pernas inquietas. Provoca uma sensação desagradável nas pernas e uma necessidade irresistível de as mexer, que surge em repouso, agrava ao fim do dia e alivia com o movimento. Interfere muito com o sono e, por isso, com o descanso e o humor durante o dia.
Distinguir o tremor parkinsónico do tremor essencial é uma das dúvidas mais frequentes nas consultas. A tabela resume as diferenças típicas, que o neurologista confirma no exame clínico.
| Característica | Tremor na doença de Parkinson | Tremor essencial |
|---|---|---|
| Quando aparece | Sobretudo em repouso, com a mão apoiada | Sobretudo em ação ou ao manter uma postura |
| Distribuição inicial | Geralmente assimétrico, começa de um lado | Geralmente nas duas mãos |
| Outros sinais | Lentidão, rigidez, passos curtos | Habitualmente isolado; pode afetar cabeça e voz |
| História familiar | Menos frequente | Frequente |
Primeiros sintomas da doença de Parkinson
A SPN estima que os primeiros sintomas da doença de Parkinson só se manifestam quando já se perdeu cerca de 60% dos neurónios da substância negra. Isto explica porque é que o início é discreto e porque é que muitos sinais são atribuídos, durante meses, ao cansaço ou à idade.
Os sintomas motores principais, descritos pela SPN, são:
- Tremor, geralmente de repouso e assimétrico. Cerca de 75% dos doentes apresentam tremor como primeiro sintoma, mas aproximadamente 25% não o manifestam no início. A ausência de tremor não exclui a doença.
- Bradicinésia, uma lentidão generalizada: a escrita fica mais pequena, os gestos do dia a dia demoram mais, o braço balança menos ao caminhar.
- Rigidez muscular, que a pessoa pode sentir como dor ou peso num ombro ou num membro.
- Instabilidade postural, que surge habitualmente mais tarde e aumenta o risco de quedas.
Há sinais que podem anteceder os sintomas motores em vários anos. A SPN destaca a hiposmia (diminuição do olfato) e as perturbações do sono, em particular sonhos agitados em que a pessoa fala, grita ou se debate. Os familiares notam muitas vezes outras alterações: a face menos expressiva, a voz mais baixa e monótona, o pestanejar menos frequente ou a obstipação persistente.
Os sintomas que não se veem
As doenças do movimento não se resumem ao movimento. A SPDMov descreve um conjunto de sintomas não motores com grande impacto na qualidade de vida:
- alterações do humor, como ansiedade e depressão;
- alterações cognitivas, como lentidão de raciocínio, dificuldades de atenção ou de memória;
- psicose, por exemplo alucinações visuais em fases mais avançadas ou como efeito da medicação;
- disautonomia, que inclui tonturas ao levantar, obstipação e alterações urinárias;
- perturbações do sono.
Na prática clínica, estes sintomas pesam muitas vezes mais no quotidiano do que o tremor. Uma depressão não tratada reduz a motivação para os exercícios e para a vida social; uma alteração cognitiva dificulta a gestão da medicação. É por isso que o seguimento deve incluir, desde cedo, a avaliação do humor e das funções cognitivas. Uma avaliação neuropsicológica permite medir de forma objetiva a memória, a atenção e as funções executivas e acompanhar a sua evolução ao longo do tempo.
Quando procurar avaliação médica
Nem todo o tremor significa doença, e nem toda a lentidão é envelhecimento normal. Recomendamos uma consulta de Medicina Geral e Familiar ou de Neurologia quando surge algum destes sinais:
- tremor que persiste, aumenta ou interfere com tarefas como escrever, comer ou beber;
- tremor em repouso, sobretudo se começa só de um lado;
- lentidão nova nos gestos, letra cada vez mais pequena ou passos mais curtos e arrastados;
- quedas sem causa clara ou sensação de que os pés “ficam presos” ao chão;
- movimentos involuntários, posturas anómalas ou tiques que surgem na idade adulta;
- desconforto nas pernas à noite que obriga a levantar e prejudica o sono;
- perda de olfato sem constipação, ou sonhos agitados em que a pessoa se debate;
- alterações do movimento que começaram depois de iniciar um novo medicamento.
Neste último caso, alguns fármacos podem provocar ou agravar alterações do movimento. Não suspenda nenhum medicamento por iniciativa própria: leve a lista completa à consulta e deixe que o médico avalie a relação e decida a alteração adequada.
Há situações que não devem esperar por uma consulta. Uma perda súbita de força ou de sensibilidade num lado do corpo, a boca ao lado, dificuldade súbita em falar ou movimentos anómalos que aparecem de forma brusca podem indicar um acidente vascular cerebral. Nesses casos, ligue de imediato para o 112.
Como se faz o diagnóstico
O diagnóstico das doenças do movimento é essencialmente clínico. Isto significa que assenta na história contada pelo doente e pela família e num exame neurológico cuidadoso, em que o neurologista observa o tremor, testa a rapidez de movimentos repetidos, avalia a rigidez, a marcha e o equilíbrio.
No caso da doença de Parkinson, o neurologista procura critérios de parkinsonismo: bradicinésia associada a rigidez, tremor de repouso ou instabilidade postural. Os exames complementares não fazem o diagnóstico por si só, mas ajudam a confirmá-lo e a excluir outras causas. Consoante o caso, podem ser pedidos:
- Análises clínicas, para excluir alterações da tiroide, défices vitamínicos ou outras causas metabólicas de tremor.
- TAC ou ressonância magnética cerebral, para afastar lesões estruturais, como enfartes ou tumores.
- Exames de imagem funcional, como a cintigrafia, que avaliam o sistema dopaminérgico ou a inervação cardíaca e ajudam a distinguir a doença de Parkinson de outros parkinsonismos ou do tremor essencial.
- Estudos genéticos, reservados para situações específicas, como início em idade jovem ou vários casos na família.
O diagnóstico é, por vezes, um processo e não um momento. Algumas doenças só revelam o seu padrão com o tempo, e a resposta à medicação é também informação útil. Por isso, o seguimento regular com o mesmo neurologista tem valor clínico próprio.
Tratamento e acompanhamento multidisciplinar
Segundo a SPN, não existe atualmente cura nem medicação que impeça a progressão da doença de Parkinson. O tratamento farmacológico centra-se no controlo dos sintomas, sobretudo através da reposição ou da imitação do efeito da dopamina. Bem ajustado, permite a muitas pessoas manter durante anos a sua atividade e autonomia. Noutras doenças do movimento, o tratamento depende da causa: o tremor essencial, a distonia ou a síndrome das pernas inquietas têm abordagens próprias, definidas pelo neurologista.
Os medicamentos são apenas uma parte da resposta. O acompanhamento é mais completo quando uma equipa segue a pessoa em várias frentes, ao longo de todas as fases da doença.
Neurologia
O neurologista estabelece o diagnóstico, define e ajusta a medicação, monitoriza a evolução e coordena a intervenção das restantes áreas. Com a progressão, os ajustes tornam-se mais finos e as consultas regulares ganham importância.
Reabilitação física
O exercício orientado melhora a mobilidade, o equilíbrio e a confiança na marcha, e ajuda a prevenir quedas. A Medicina Física e de Reabilitação define um plano adaptado à fase da doença, que pode incluir treino de marcha com pistas visuais ou sonoras, exercícios de amplitude e de equilíbrio. Para continuar em casa entre sessões, reunimos exercícios de reabilitação motora que devem ser escolhidos com o terapeuta.
Terapia da fala
A voz baixa e monótona, a dificuldade em articular as palavras e, em fases mais avançadas, a dificuldade em engolir são frequentes na doença de Parkinson. A terapia da fala trabalha a intensidade da voz, a articulação e a segurança da deglutição, reduzindo o risco de engasgamento.
Psicologia e psiquiatria
A ansiedade e a depressão fazem parte da doença e não são apenas uma reação a ela. O acompanhamento em Psicologia ajuda o doente e a família a lidar com o diagnóstico e com as mudanças no dia a dia. Quando há depressão marcada, alterações do sono ou sintomas psicóticos, a Psiquiatria articula o tratamento com a Neurologia.
Nutrição
A medicação pode interagir com a alimentação, a obstipação é muito comum e a perda de peso é frequente nas fases avançadas. Uma consulta de Nutrição ajusta o plano alimentar às necessidades de cada pessoa, incluindo a distribuição das refeições em relação aos horários da medicação.
O papel da família
O cuidador é parte da equipa. É muitas vezes quem nota a primeira alteração, quem acompanha às consultas e quem observa as flutuações ao longo do dia. Envolver a família nas decisões e cuidar também de quem cuida faz parte de um bom plano. Algumas das estratégias que descrevemos no nosso guia para cuidadores de Alzheimer aplicam-se igualmente a quem acompanha uma pessoa com doença de Parkinson e alterações cognitivas.
Como preparar a primeira consulta
Antes de ir, recomendamos que:
- Anote quando começaram os sintomas e como evoluíram, mesmo que pareçam pequenos.
- Grave um vídeo curto do tremor ou do movimento anómalo, sobretudo se varia ao longo do dia e pode não aparecer durante a consulta.
- Leve a lista completa de medicamentos, incluindo suplementos e as doses.
- Registe os sintomas não motores: sono, olfato, humor, memória, obstipação, tonturas.
- Indique a história familiar de tremor, Parkinson ou outras doenças neurológicas.
- Traga exames anteriores, como análises e relatórios de imagem.
- Venha acompanhado, se possível: o familiar acrescenta observações que o próprio doente nem sempre nota.
A Unidade de Parkinson e Doenças do Movimento do C3
No C3 – Centro Clínico de Coimbra, a Unidade da Doença de Parkinson e Movimento reúne num só local as especialidades de que estas doenças precisam: Neurologia, Psiquiatria, Psicologia Clínica, avaliação neuropsicológica, reabilitação física e cognitiva, terapia da fala e nutrição. A articulação entre as várias áreas permite acompanhar não só o movimento, mas também o humor, a cognição e a autonomia, com especial atenção às pessoas mais velhas e às doenças crónicas.
A primeira consulta de Neurologia custa 90 €, a avaliação neuropsicológica 200 € e cada sessão de reabilitação ou de terapia da fala 40 €; existe ainda um pack de 10 sessões de reabilitação por 360 €. Disponibilizamos consultas presenciais e online e acompanhamento multilingue para expatriados. Consulte todos os valores e acordos em vigor na página de preços e acordos do C3.
Perguntas frequentes
Tremer das mãos é sempre sinal de Parkinson?
Não. Há tremor fisiológico, que se acentua com o cansaço, a ansiedade ou o café, e o tremor essencial, que é mais frequente do que o tremor parkinsónico e aparece sobretudo ao usar as mãos. O tremor de repouso, que começa de um lado, é mais sugestivo de doença de Parkinson. Só a avaliação neurológica permite distinguir com segurança.
A doença de Parkinson pode começar sem tremor?
Sim. Segundo a SPN, cerca de 25% dos doentes não apresentam tremor no início. Nestes casos, os primeiros sinais são a lentidão, a rigidez, a letra mais pequena ou a redução do balanço de um braço ao caminhar.
Que médico trata as doenças do movimento?
O neurologista é o especialista que faz o diagnóstico e orienta o tratamento. O médico de família tem um papel importante na deteção inicial e no encaminhamento. Ao longo da doença, o acompanhamento beneficia da intervenção de outras áreas, como a reabilitação, a terapia da fala, a psicologia, a psiquiatria e a nutrição.
As doenças do movimento são hereditárias?
Na maioria dos casos de doença de Parkinson, não há uma causa hereditária identificável, embora existam formas genéticas, sobretudo quando a doença começa cedo. Outras doenças, como o tremor essencial, têm frequentemente história familiar, e algumas, como a doença de Huntington, são claramente genéticas. Se há vários casos na família, refira-o na consulta de Neurologia.